A perimenopausa, uma fase natural da vida feminina que precede a menopausa, tem ganhado crescente atenção e reconhecimento nos últimos anos. Com ela, surge uma avalanche de informações, produtos e, por vezes, um novo vocabulário para descrever as profundas transformações hormonais e físicas que as mulheres experimentam. Marcas de bem-estar e beleza têm abraçado o termo, buscando desmistificar, educar e oferecer soluções personalizadas para os desafios dessa etapa. No entanto, em um movimento que promete acender debates acalorados na indústria, a renomada marca de bem-estar Valerie está dando um passo audacioso, decidindo remover a palavra “perimenopausa” de suas embalagens e campanhas de marketing.
A fundadora da Valerie, Wizz Selvey, justifica a decisão afirmando que o rótulo não está mais “aterrissando” com as mulheres, sugerindo uma desconexão entre a terminologia e a percepção ou experiência do público-alvo. Essa postura levanta questões cruciais sobre a linguagem que usamos para discutir a saúde e o bem-estar femininos, a eficácia do marketing focado em termos específicos e o que realmente ressoa com as mulheres em busca de apoio durante essa fase complexa.
A Perimenopausa em Destaque: Mais que um Termo, uma Fase da Vida
Antes de mergulharmos nas razões por trás da decisão da Valerie, é fundamental contextualizar a importância da perimenopausa. Esta fase, que pode durar de alguns a mais de dez anos, é marcada por flutuações hormonais significativas – principalmente estrogênio e progesterona – que preparam o corpo para o fim da fertilidade. Os sintomas são vastos e variados, abrangendo desde ondas de calor, suores noturnos e distúrbios do sono até alterações de humor, fadiga, ressecamento vaginal e mudanças na pele e cabelo.
Para muitas mulheres, a perimenopausa pode ser um período de grande desconforto e confusão, muitas vezes mal compreendido ou diagnosticado. A conscientização sobre essa fase tem sido um passo vital para que mais mulheres busquem apoio e soluções. Nesse cenário, o surgimento de produtos e marcas dedicadas à perimenopausa foi visto como um avanço, promovendo a desestigmatização e a validação das experiências femininas. O uso do termo “perimenopausa” no marketing ajudou a criar categorias específicas de produtos, desde suplementos a linhas de skincare projetadas para abordar as necessidades hormonais da pele, e até mesmo aplicativos de bem-estar.
Valerie: A Decisão de Reavaliar a Linguagem do Bem-Estar Feminino
A iniciativa da Valerie, uma marca reconhecida por sua abordagem holística ao bem-estar, é um sinal de que a conversa em torno da perimenopausa está amadurecendo e se tornando mais sofisticada. A decisão de Wizz Selvey de se afastar do termo sugere que, embora a intenção inicial de usar o rótulo fosse positiva – educar e empoderar –, ele pode, paradoxalmente, estar criando barreiras ou não comunicando de forma eficaz o valor dos produtos e o apoio que a marca oferece.
Quais seriam as possíveis razões para essa percepção de que o termo “não está mais aterrissando”?
- Conotação Médica Excessiva: Para algumas, a palavra “perimenopausa” pode soar excessivamente clínica ou medicalizada, gerando uma sensação de condição ou doença, em vez de uma fase natural da vida. Isso pode afastar mulheres que buscam soluções de bem-estar e beleza com uma abordagem mais gentil e menos focada em diagnósticos.
- Percepção de Idade ou Limitação: Apesar dos esforços de desestigmatização, o termo ainda pode estar associado a um estágio da vida que muitas preferem não enfatizar em sua rotina de beleza e bem-estar, buscando uma abordagem mais atemporal e inclusiva.
- Busca por Soluções, Não por Rótulos: O que as mulheres realmente buscam são soluções eficazes para seus sintomas – uma pele mais hidratada, um sono melhor, menos ondas de calor, mais energia. O rótulo da perimenopausa pode se tornar secundário à promessa de alívio e melhoria da qualidade de vida.
- Variações Individuais: A experiência da perimenopausa é profundamente individual. Rótulos genéricos podem falhar em capturar a diversidade das manifestações e a amplitude das necessidades, levando as mulheres a buscar uma comunicação mais personalizada e menos categorizada.
Selvey espera um debate, e isso é compreensível. A retirada de um termo tão difundido e cuidadosamente estabelecido no mercado de bem-estar feminino é um movimento ousado, mas que reflete uma sensibilidade aguçada às nuances da comunicação e da psicologia do consumidor.
Os Desafios da Nomenclatura no Marketing de Bem-Estar
A linguagem utilizada no marketing de bem-estar e beleza tem um poder imenso na forma como as mulheres percebem a si mesmas e os produtos que consomem. Termos podem empoderar ou marginalizar, educar ou confundir. A escolha de palavras como “anti-idade” versus “pro-idade” ou “envelhecimento saudável” já gerou discussões significativas na indústria da beleza, e a decisão da Valerie se insere nessa mesma linha de reflexão crítica sobre a terminologia.
A indústria tem o desafio constante de encontrar um equilíbrio entre a especificidade necessária para abordar problemas reais (como as mudanças hormonais da perimenopausa) e uma linguagem que seja acolhedora, inclusiva e que celebre a vida em todas as suas fases. O movimento da Valerie pode ser interpretado como um convite a focar menos no “o que é” (o rótulo) e mais no “como se sente” e “o que se pode fazer” (a experiência e as soluções).
Além do Rótulo: Foco na Experiência e nas Necessidades Reais
Se as marcas se afastam do termo “perimenopausa”, como elas podem continuar a atender eficazmente às necessidades das mulheres nessa fase? A resposta reside em uma comunicação mais focada nos benefícios e nas experiências. Em vez de vender “produtos para perimenopausa”, as marcas podem oferecer “soluções para pele ressecada e com perda de elasticidade”, “apoio para o sono tranquilo” ou “ingredientes que promovem o equilíbrio hormonal e a vitalidade”.
Skincare na Transição Hormonal
A pele é um dos órgãos que mais sentem o impacto das flutuações hormonais da perimenopausa. A diminuição do estrogênio afeta a produção de colágeno, elastina e ácido hialurônico, resultando em:
- Ressecamento e Sensibilidade: A barreira cutânea pode ser comprometida, levando a uma pele mais seca, áspera e reativa. Produtos ricos em ceramidas, ácidos graxos e ingredientes umectantes como o ácido hialurônico são essenciais.
- Perda de Firmeza e Elasticidade: A diminuição do colágeno leva à flacidez e ao aparecimento de linhas finas e rugas. Ingredientes como peptídeos, retinoides (com cautela, devido à sensibilidade), vitamina C e antioxidantes se tornam cruciais.
- Acne Hormonal: Alguns hormônios podem exacerbar a produção de sebo, causando acne em mulheres que não a experimentavam desde a adolescência. Ativos como ácido salicílico e niacinamida podem ajudar, sempre com foco em não ressecar excessivamente a pele já fragilizada.
Nesse contexto, a comunicação das marcas pode focar na “pele que busca equilíbrio e hidratação profunda em períodos de mudança”, ou “rotinas que restauram a vitalidade e a luminosidade da pele madura”, em vez de focar no termo da fase em si.
Bem-Estar Integral
O bem-estar na perimenopausa vai muito além do skincare. Ele engloba a saúde mental, física e emocional. Marcas podem destacar produtos e serviços que apoiam:
- Manejo do Estresse e Qualidade do Sono: Chás relaxantes, suplementos com magnésio ou adaptógenos, óleos essenciais e guias para práticas de mindfulness.
- Suporte Nutricional: Suplementos vitamínicos e minerais específicos para mulheres nessa fase, que podem ajudar a mitigar deficiências e apoiar o corpo.
- Energia e Vitalidade: Produtos que auxiliam na manutenção dos níveis de energia e no combate à fadiga, muitas vezes um sintoma exaustivo da perimenopausa.
O marketing poderia então se concentrar em “soluções para dias mais equilibrados e noites reparadoras”, ou “boost de energia natural para enfrentar os desafios do dia a dia”.
O Papel da Cosmetologia e Dermatologia na Perimenopausa (e Além)
Profissionais da dermatologia e cosmetologia têm um papel insubstituível em guiar as mulheres por essa fase. Eles podem oferecer:
- Consultas Personalizadas: Avaliação das necessidades individuais da pele e cabelo, considerando as flutuações hormonais e histórico de saúde.
- Tratamentos Estéticos Avançados: Procedimentos como lasers para estímulo de colágeno, preenchimentos leves para restaurar volume, e terapias de luz para tratar manchas e melhorar a textura, sempre com um olhar atento à sensibilidade da pele madura.
- Formulações Específicas: Recomendações de cosméticos e dermocosméticos com ingredientes que comprovadamente auxiliam na saúde da pele pós-menopausa, como fitoestrogênios, peptídeos biomiméticos e complexos hidratantes avançados.
A comunicação deve ser sempre embasada na ciência, oferecendo opções seguras e eficazes que respeitem a individualidade de cada mulher.
O Futuro da Comunicação sobre Saúde Feminina
A decisão da Valerie pode ser um marco para uma abordagem mais empática e matizada na comunicação sobre saúde feminina. É um lembrete de que, embora a educação seja vital, a forma como apresentamos essa educação é igualmente importante. O futuro pode ver marcas optando por:
- Linguagem Mais Inclusiva e Atemporal: Focar em “mulheres em transformação”, “bem-estar hormonal” ou “vitalidade feminina em todas as idades”.
- Narrativas Focadas na Força e na Experiência: Celebrar a jornada da mulher, em vez de focar em uma condição.
- Ênfase em Soluções Holísticas: Integrar skincare, nutrição, movimento e saúde mental em um pacote coeso de bem-estar.
- Comunidade e Suporte: Criar plataformas onde as mulheres possam compartilhar experiências e encontrar apoio, independentemente de como rotulam sua fase de vida.
O objetivo final é que as mulheres se sintam vistas, compreendidas e apoiadas, e não categorizadas por um rótulo que pode não ressonar com sua identidade ou aspirações.
Conclusão
A decisão da marca Valerie de se distanciar do termo “perimenopausa” em seu marketing não é um retrocesso, mas sim uma evolução na forma como a indústria do bem-estar se relaciona com as mulheres. Ela sinaliza uma busca por uma comunicação mais autêntica, menos clinical e mais centrada na experiência vivida e nas soluções práticas. À medida que as marcas refinam sua abordagem, o foco passará cada vez mais de um rótulo para a criação de um ecossistema de apoio que capacita as mulheres a navegarem pelas complexidades de cada fase da vida com confiança, beleza e bem-estar integral. É um convite para que a indústria ouça com mais atenção, adapte-se com mais sensibilidade e continue a inovar não apenas em produtos, mas também na linguagem que utiliza para conectar e inspirar.
